O zoroastrismo é uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo, surgida na antiga Pérsia (atual Irã) entre 1500 a.C. e 1000 a.C., fundada pelo profeta Zaratustra (Zoroastro).

O Zoroastrismo é frequentemente chamado de “o pai das religiões reveladas” porque muitos conceitos que hoje consideramos fundamentais no Judaísmo (tardio), Cristianismo e Islã apareceram primeiro na fé de Zaratustra.
O momento chave para essa troca cultural foi o Cativeiro da Babilônia (século VI a.C.). Quando Ciro, o Grande (rei da Pérsia e zoroastrista), conquistou a Babilônia, ele libertou os judeus e permitiu que retornassem a Jerusalém. Durante os séculos de domínio persa, os judeus absorveram e adaptaram ideias persas.
Olha alguma coisas interessantes:
O Messias e o Nascimento Virginal
O Saoshyant: O Zoroastrismo aguarda a vinda de um Salvador, o Saoshyant, que nasceria de uma virgem e derrotaria o mal no final dos tempos.

Os Reis Magos: No Novo Testamento (Mateus 2), a visita dos “Magos” ao menino Jesus é uma referência direta. “Mago” (Magus) era o termo para os sacerdotes zoroastristas. Simbolicamente, o Evangelho de Mateus mostra a antiga religião (Zoroastrismo) passando o bastão e reconhecendo a nova (Cristianismo).
É fascinante notar que na Bíblia, Ciro, o Grande (o rei zoroastrista), é o único não judeu a ser chamado de (Ungido) por Deus (Isaías 45:1), o que mostra o imenso respeito e a conexão entre essas tradições.
Ensinamentos do Zoroastrismo Centrais que Podem Ser Aplicados no Seu Dia a Dia
O pilar fundamental da fé zoroastriana é resumido na frase: “Humata, Hukhta, Huvarshta” (Bons Pensamentos, Boas Palavras, Boas Ações).
“Esses são os três princípios: pensamento correto, palavra correta e ação correta. Aquele que os possui será feliz tanto neste mundo quanto no próximo.” Yasna 35.6
Tudo o que acontece ao nosso redor pode não ser nossa culpa, mas a forma como respondemos é nossa responsabilidade. Cada pequena escolha diária (como tratamos um colega, como gastamos nosso dinheiro) é um voto a favor da ordem ou do caos no mundo.
Aplicação Hoje:
Honestidade Radical: Ser confiável e cumprir promessas é uma forma de manter a ordem do mundo.
Combate à Desinformação: Buscar a verdade dos fatos e não espalhar boatos é um ato espiritual de combate à Druj.
Cuidado com o Ambiente: Asha também se refere à ordem natural. Poluir ou destruir a natureza é visto como um ato de caos. Proteger o meio ambiente é um dever religioso e prático.
A Felicidade Através da Felicidade dos Outros
“Pela retidão, pela boa mente, pelas ações realizadas em conformidade com a Verdade, assim o homem e a mulher alcançam a felicidade.” Yasna 35.6
Uma máxima zoroastriana diz: “A felicidade vem para aquele que busca a felicidade para os outros.”
Aplicação Hoje: Isso quebra o ciclo do egoísmo moderno. O sucesso não é um jogo de soma zero (onde para um ganhar, outro tem que perder). Ajudar colegas a crescerem, apoiar a comunidade e ser generoso gera um ciclo virtuoso que, inevitavelmente, retorna para você.
Trabalho Duro e Rejeição do Ascetismo
“O homem que trabalha a terra com o braço esquerdo e o direito, a ele Spenta Mainyu (o Espírito Santo) vem ajudar.” Vendidad, Fargard 3.1-2“Aquele que semeia grãos, semeia retidão. Aquele que faz a terra produzir, ele a eleva. Quando a terra é cultivada, nasce mais felicidade do que quando está abandonada.” Vendidad, Fargard 3.1-2
Ao contrário de algumas filosofias que pregam a pobreza ou o afastamento da sociedade como caminho para a santidade, o Zoroastrismo valoriza a prosperidade obtida através do trabalho honesto.
Aplicação Hoje: O trabalho não é apenas uma forma de pagar contas, mas uma ferramenta para melhorar o mundo. Ser produtivo, criar riqueza de forma ética e desfrutar dos frutos do seu trabalho é visto como algo positivo e espiritual.
Algumas Citações
“A caridade para com os necessitados é empréstimo a Deus. O que dás aos pobres, emprestas ao Criador, e Ele te pagará com juros abundantes.” Denkard, Livro 3“Assim como é a vontade do Senhor, assim deve ser o juiz; um ato feito pelo bem ou pelo mal. Cada um colherá segundo suas obras.” Yasna 45.9
“A verdadeira felicidade consiste em fazer os outros felizes. Aquele que procura apenas sua própria felicidade nunca a encontrará; mas aquele que busca a felicidade dos outros encontra a sua própria.” Denkard, Livro 6.254
“A pessoa que fala a verdade promove a santidade; aquele que planta grãos, planta a santidade. Aquele que combate a mentira com a verdade, combate pela ordem cósmica.” Vendidad, Fargard 4
Nota importante: Os textos zoroastrianos originais foram escritos em Avéstico (língua antiga) e Pahlavi (persa médio), e muitos se perderam ao longo dos séculos. As traduções variam, e muitos ensinamentos foram preservados oralmente antes de serem escritos. Os trechos acima são traduções e adaptações baseadas nas versões mais amplamente aceitas dos textos sagrados zoroastrianos.
Conclusão
Três Mil Anos de Sabedoria em Três Frases
Hoje, restam apenas cerca de 100 mil zoroastristas no mundo — a maioria no Irã e na Índia (onde são chamados de Parses). Uma religião que já foi a fé oficial do maior império do mundo antigo foi quase apagada da história pela conquista islâmica da Pérsia no século VII. Seus templos de fogo sagrado, que um dia iluminaram toda a Ásia Central, agora são raros e pouco conhecidos.
Mas há uma ironia poderosa nisso: embora poucos conheçam o nome de Zaratustra, suas ideias nunca morreram. Elas migraram, se transformaram e se espalharam através das três maiores religiões monoteístas do planeta. O conceito de céu e inferno, a luta entre bem e mal, a vinda de um salvador — tudo isso tem raízes persas.
Porém, talvez o legado mais valioso do Zoroastrismo não esteja nas grandes doutrinas teológicas, mas na simplicidade radical de seus ensinamentos práticos: Humata, Hukhta, Huvarshta — Bons Pensamentos, Boas Palavras, Boas Ações.
Pense nisso por um momento. Não há rituais complicados, não há hierarquias rígidas, não há promessas de salvação passiva. O que Zaratustra propôs há três milênios foi revolucionário: você é responsável pela sua própria transformação e pela transformação do mundo.
Cada pensamento que você escolhe cultivar, cada palavra que você decide pronunciar, cada ação que você toma — tudo isso importa. Você não é um espectador passivo na batalha entre a luz e a escuridão. Você é um soldado ativo, e suas armas são suas escolhas diárias.
E aqui está o insight mais profundo: esse caminho não exige que você se isole do mundo ou renuncie aos prazeres da vida. Ao contrário de tradições que pregam o ascetismo e a negação, o Zoroastrismo valoriza a prosperidade obtida através do trabalho honesto. Construir uma vida próspera, criar riqueza de forma ética, sustentar sua família, contribuir para a sociedade — tudo isso não é apenas permitido, é espiritualmente valorizado.
Trabalhar duro não é uma maldição; é uma forma de participar da ordem cósmica, de combater o caos com criação, de trazer mais luz ao mundo. Você não precisa escolher entre ser bem-sucedido e ser bom. Na visão zoroastriana, ambos caminham juntos.
E há mais: o Zoroastrismo entende algo que a psicologia moderna só recentemente começou a comprovar — a felicidade vem para aquele que busca a felicidade dos outros. Não é autossacrifício vazio nem altruísmo ingênuo. É a compreensão profunda de que estamos todos interconectados, de que o bem que fazemos aos outros inevitavelmente retorna para nós, criando ciclos virtuosos de prosperidade compartilhada.
Quando você ajuda um colega a crescer, quando apoia sua comunidade, quando age com generosidade genuína, você não está apenas sendo “bonzinho” — você está plantando sementes que florescerão na sua própria vida. A felicidade não é um recurso escasso que precisa ser guardado a sete chaves; ela se multiplica quando compartilhada.
Hoje, vivemos em uma era de cinismo crescente, onde o sucesso é frequentemente medido pela capacidade de passar por cima dos outros, onde a verdade é relativizada, onde o meio ambiente é sacrificado pela ganância de curto prazo. Nesse contexto, os ensinamentos de Zaratustra não são apenas relevantes — são urgentemente necessários.
Imagine se cada um de nós acordasse com a consciência de que nossos pensamentos, palavras e ações têm peso cósmico. Que a honestidade não é apenas uma virtude abstrata, mas uma força que mantém a ordem do mundo. Que cuidar do planeta é um dever sagrado. Que prosperar eticamente e ajudar os outros a prosperarem não são objetivos contraditórios, mas complementares.
O Zoroastrismo quase desapareceu como religião organizada, mas seus princípios continuam sussurrando através dos séculos, esperando serem redescobertos. Não como dogmas rígidos de uma fé antiga, mas como ferramentas práticas para navegar a complexidade do mundo moderno.
A pergunta que Zaratustra nos deixou permanece tão poderosa quanto há três mil anos: em cada momento da sua vida, você está escolhendo alimentar a ordem ou o caos? A verdade ou a mentira? A luz ou a escuridão?
A resposta não está em templos distantes ou textos sagrados empoeirados. Está nas pequenas escolhas que você faz hoje: como trata a pessoa que atende sua ligação, se cumpre a promessa que fez, se compartilha conhecimento ou o guarda com inveja, se busca prosperar às custas dos outros ou junto com eles.
Bons pensamentos, boas palavras, boas ações. Três frases. Três mil anos. Uma sabedoria atemporal.
O fogo sagrado de Zaratustra pode ter se apagado em milhares de templos, mas ainda pode ser aceso dentro de você. Não precisa de ritual, apenas de uma decisão: viver de forma que suas escolhas diárias sejam votos a favor da luz.
E talvez, no final, esse seja o verdadeiro milagre — não que uma religião tenha sobrevivido, mas que suas verdades essenciais sejam tão universais que transcendem qualquer religião.